A Caracterologia em Análise*
Claudia de Almeida Gallo **
Wilhelm Reich desenvolveu sua obra ao longo de aproximadamente 40 anos, desde o início da década de 20 até meados dos anos 50, afetando e sendo afetado pela realidade de sua época e por todas as transformações ocorridas nesse fecundo período em que viveu. Pretendo, neste trabalho, problematizar um momento específico desse percurso: a utilização por Reich do conceito de caráter e a construção de um corpo teórico e técnico original fundamentado neste, refazendo resumidamente o processo de construção conceitual, identificar as linhas que o foram compondo e analisar seus efeitos e desdobramentos.
Destacarei o período histórico em que localizamos a produção de Reich e a importância de suas experiências pessoais, porque acredito que toda produção teórica, e conseqüentemente toda prática nela fundamentada, traz em seu bojo as marcas daqueles que as pensaram e praticaram, de sua historicidade, as marcas de seu tempo. Torna-se, portanto, de suma importância refletir sobre os fundamentos epistemológicos e filosóficos contidos no corpo conceitual reichiano, que resultou em uma utilização peculiar da noção de caráter e na construção de tipologias de caráter.
Há, em sua obra, dois grandes momentos temáticos, ou duas grandes linhas teóricas: primeiramente, um momento clínico-sexológico, que começa no início da década de 20 e se estende por toda a sua obra, e uma segunda linha de pensamento, a freudo-marxista, que identificamos a partir de 1927 até 1933 aproximadamente.
A elaboração da teoria do caráter ocorreu entre 1924 e 1933, impulsionada por necessidades de cunho teórico/técnico e de ordem prática, ainda no seio da Psicanálise. Naquela época, esta não dispunha de uma estratégia terapêutica organizada e comum. Ao lado de alguns princípios básicos estabelecidos, utilizavam-se todo tipo de técnicas pessoais, nem sempre coerentes com esses princípios. Atento a essa realidade, Reich introduzirá o rigor e a precisão técnica que marcarão sua trajetória como psicoterapeuta, orgonoterapeuta, grande pensador e crítico social.
As experiências pessoais de Reich nesse período foram decisivas para o rumo que tomaram suas investigações, como o trabalho no Dispensário de Viena e a coordenação do Seminário sobre a Técnica Psicanalítica. O desenvolvimento da técnica da Interpretação Sistemática e da Análise das Resistências e a formulação da Teoria do Caráter, a insistência no papel central da genitalidade na teoria das neuroses, a tese das raízes sociais da etiologia sexual das neuroses e a crítica radical da estrutura social que lhes serve de base são alguns dos resultados dessas experiências.
*Texto extraído da Revista Reichiana , n.10, 2001. Pag. 19 à 23.Instituto Sedes Sapientiae.
**Psicóloga clínica, psicoterapeuta reichiana pelo Instituto Sedes Sapientiae, analista bioenergética CBT pela SOBAB, professora e coordenadora do Curso de Especialização em Clínica Reichiana do Instituto Sedes Sapientiae.
Desse período é que pinçamos a máxima reichiana que orienta, ainda hoje, tanto nossas convicções teóricas quanto nossas práticas, porém que raramente é objeto de nossas reflexões. “Toda sociedade molda as estruturas de caráter de que necessita para sobreviver”. Caráter aqui compreendido como “o funcionamento contínuo e padronizado de um indivíduo” – sua maneira de pensar, sentir e agir, seu modo habitual de resolução de conflitos intrapsíquicos.
Reich compreendia o homem como uma complexa unidade, na qual corpo e mente são produtos da relação com o meio externo, e que funciona em consonância com determinadas marcas e registros internos. Esse postulado de uma unidade funcional é o resultado da experiência de levar às últimas conseqüências o conceito freudiano de pulsão. Para Reich a libido é uma energia quantificável e de determinada qualidade que, ao longo do desenvolvimento do individuo, lhe confere formas mais ou menos flexíveis, mais ou menos rígidas, sempre a partir das experiências com o mundo exterior.
A estrutura de caráter de um indivíduo seria a cristalização desse processo histórico de uma determinada época. As experiências vividas no coletivo atravessariam o sujeito, modelando sua estrutura, que encontra sua expressão vivida na couraça muscular do caráter. Incluindo, desde então, o corpo físico na complexidade da formação da personalidade dos sujeitos não mais como mero espelho do psiquismo, mas como lugar privilegiado de encontro e realização das forças vitais da existência humana. Portanto, a saúde ou o adoecimento psíquico estão intimamente associados às condições objetivas da vida que se leva.
Creio ser possível reconhecer nessa formulação uma composição das marcas fundamentais de cada um dos grandes momentos referidos acima, uma de herança freudiana e outra de origem marxista. Iniciarei com a primeira.
Psicanalista, no início de sua vida profissional, sua produção teórica dessa época traz os inconfundíveis sinais de sua adesão às primeiras formulações de Freud quanto à teoria do desenvolvimento psico-sexual, da libido e do inconsciente. O conflito apontava ainda para o confronto entre indivíduo e exigências sociais. A sexualidade como força motriz do desenvolvimento, uma vez reprimida, seria a fonte energética da constituição e manutenção do caráter neurótico, que, por sua vez, reproduziria a própria repressão sofrida, num circuito viciado que só seria rompido numa experiência analítica. A possibilidade de descarga orgástica satisfatória, que significaria vivência saudável da sexualidade, levaria o sujeito à saúde e, conseqüentemente, à não reprodução dos fatores patologizantes.
Ora, Freud, nessa época, já havia desenvolvido sua Segunda Tópica e a segunda Teoria das Pulsões, a partir da qual o conflito humano encontrava suas origens no mundo intrapsíquico do sujeito, na oposição pulsões de vida versus pulsões de morte. Reich estava distante de seu mestre e encontrava-se praticamente sozinho em suas convicções. Elas tentavam conciliar corpos teóricos cujos olhares dirigiam-se a campos distintos da vida dos sujeitos, e ambos reivindicavam para si a análise mais apropriada. Agora já podemos introduzir a segunda marca, que tem origem na filosofia marxista.
A postulação de uma infra-estrutura econômica e social que produz superestruturas, formas de ser, de sentir e de viver, é herança de Marx. Produção que produz produto final (formas de existência humana), essa é a idéia que Reich acoplou à compreensão das estruturas de personalidade e à formação das mesmas.
Para auxiliar-me nas relações que agora pretendo estabelecer, é necessário abrir um parêntese: ao longo da história das Ciências Humanas, observamos dois movimentos distintos. O primeiro deles foi o Humanismo do início do século. Apoiado no conceito moderno de EU, fundado por Descartes no século XVII e fortalecido pela escola alemã do Romantismo e Idealismo do século XVII, influenciou profundamente as construções psicanalíticas com suas idéias de progresso, evolução e conscientização dos indivíduos, remetendo ao interior dos mesmos as origens de seus conflitos, e angústias e os caminhos para a resolução.
O segundo movimento, o Estruturalismo, manifestou- se fortemente mais tarde, na década de 50, mas sua marca já estava presente em Reich – compreender o homem como uma estrutura modelada a partir de certas condições e possibilidades.
As formulações reichianas são híbridas, mescladas por influências diversas que foram capazes de produzir tamanha riqueza; mantêm, entretanto, intocadas pelo menos dois pontos.
Podemos considerar Reich como um dos precursores da noção de articulação entre desejo e campo social, notadamente presente em sua concepção da formação dos caracteres, estrutura pessoal resultante de modelagem social, política e econômica. Porém, a exemplo de Marx, Reich, embora distinguido e articulando, ainda mantém separados desejo e campo social, estabelecendo uma determinação do campo infra-estrutural sobre o superestrutural, entendendo-se como esferas separadas e sustentando um caráter unilateral da determinação. Constatamos, portanto, uma concepção de transcendência em sua teoria, que se percebe pela existência de algo posto em um lugar inquestionável, que permanece inalterado, considerado constante, na origem, como fundamento, que é a relação de causa/efeito encontrada em sua afirmação. Marcas do estruturalismo.
O segundo ponto diz respeito à caracterologia em si, ou aos modelos de existência humana por ele identificados. Sua idéia de continuum progressivo de desenvolvimento, a contraposição caráter neurótico/caráter genital, que se compreende como meta a ser alcançada pelos sujeitos, constituindo-se em paradigma de saúde, limita nosso olhar para o reconhecimento de outras possíveis manifestações das formas de existir no mundo. Observa-se também a preocupação de manter intacta a noção de homem uno, indivisível, homem=mente+corpo, marcas do humanismo que anunciam uma concepção binária em sua teoria, pólos opostos, porém complementares.
Entretanto, essa não foi a concepção teórica final de Reich. A estrutura modelada pelos processos infra-estruturais, ancorada na sexualidade reprimida, funciona de determinadas maneiras. A percepção de movimentos e de fluxos dá um caráter de funcionalismo às idéias posteriores à Análise de Caráter. A questão agora seria: como funciona a estrutura? Porém, apesar da brecha, ainda há uma composição entre estrutura e função, mantendo-se uma posição de inter0relação entre as mesmas e não se alteram as bases do pensamento, conservando-se a noção de fundamento. Embora passível de alteração, há origem. Mantém-se a transcendência.
Luz no impasse, pois, se o Funcionalismo conserva as bases filosófico-epistemológicas das quais deriva, é provável que os efeitos da aplicação prática dessa teoria sejam a reprodução/manutenção das visões que os efeitos de homem e de mundo que elas carregam.
Na tentativa de abrir outras frentes de análise, lançarei mão de um conceito contemporâneo oriundo da Filosofia e de sua interseção com a Psicanálise, o de subjetividade, definida como composição de elementos heterogêneos, sempre da ordem da multiplicidades. Note-se que não há aí lugar para o que se pretende uno. Essa concepção, ao romper com a idéia de unidades, enfatiza e pensa o processo no qual a estrutura é sempre auto-modeladora, não é dada como anterior, tampouco como permanente; não é organizadora per si de nenhum processo.
Esse conceito me interessa porque encontro na obra de Reich alguns pressupostos teóricos passíveis de interseção: a afirmação da existência de uma energia objetiva que sustenta os processos humanos, a positividade dessa energia, que acontece sempre como suporte à vida e ao vivo, rejeitando a existência de uma pulsão de morte. O princípio da auto-regulação, através do qual um organismo segue sua orientação singular para a saúde, mantendo o equilíbrio instável de sua economia energética, através de processos de carga e descarga, expansão e retração.
Abrem-se novas perspectivas de compreensão e análise. Há possibilidade de escapar à transcendência – o quê define quem/quem define o quê - , abrindo espaço para uma visão menos determinista e naturalista, na medida em que o sujeito produzido está em permanente processo de autoprodução e produção do meio que o atravessa,e esse meio também está em contínuo processo de produções. Desejo e campo social entendidos como planos que, embora distintos, são inseparáveis em seus processos de constituição.
Abre-se então a linha do Construtivismo, na qual as estruturas se alteram, não mais apenas a forma ou modo de funcionar.
A máxima reichiana em toda sua atualidade, no que diz respeito aos mecanismos de produção de estruturas de existência, nos faz pensar sobre as novas, manifestações caracterológicas que observamos (que compreendo como novas subjetividades), essas produzidas pela contemporaneidade, na qual, por exemplo, a repressão sexual vigente na época de Freud e Reich transformou-se em liberação e onde o autoritarismo explicito travestiu-se de neo-liberalismo. Há sempre necessidade de termos um posicionamento crítico em relação às teorias que absorvemos e às práticas que exercemos,para que os efeitos sejam no sentido do fortalecimento da potência de diferir de cada um de nós, de reforço das singularidades e não da mera adequação e reprodução de modos homogêneos de existência.
Nome
Isso é um comentário